
Agência Assembleia / Foto: Wesley Ramos
O avanço das fake news volta ao centro do debate público com a aproximação das eleições de 2026. Em entrevista à jornalista Elda Borges, no programa Café com Notícias desta quinta-feira (26), na TV Assembleia, o juiz do Tribunal de Justiça do Maranhão, Paulo Brasil Menezes, analisou como a desinformação deixou de ser apenas um fenômeno social pontual para se tornar uma estratégia organizada, com forte impacto no cenário político e no comportamento do eleitor.
Segundo ele, embora a disseminação de mentiras sempre tenha existido, foi nas eleições de 2018 que o termo “fake news” passou a representar uma engrenagem estruturada, utilizada com objetivos políticos bem definidos. O que antes poderia ser interpretado como uma distorção inocente da realidade, hoje, configura-se como uma ferramenta capaz de gerar confusão mental, manipular percepções e influenciar decisões eleitorais.
Esse cenário é potencializado pelo ambiente digital. O crescimento das redes sociais ampliou o alcance das informações e da desinformação, tornando os usuários mais expostos a discursos simplificados e estratégias de populismo digital. Nesse contexto, a tecnologia desempenha papel central. O uso de inteligência artificial, por exemplo, já permite a criação de conteúdos hiper-realistas, como vídeos e áudios manipulados (deep fakes), dificultando a distinção entre o que é verdadeiro e o que foi artificialmente produzido.
“Pegadas digitais”
Outro ponto destacado é o uso das chamadas “pegadas digitais”. Dados deixados pelos usuários nas plataformas são analisados por empresas e utilizados para direcionar conteúdos personalizados, inclusive com viés político, o que pode reforçar bolhas informacionais e limitar o acesso a visões diversas.
O combate a esse tipo de prática, no entanto, enfrenta desafios significativos. De acordo com o especialista, uma das maiores dificuldades está na reparação dos danos causados por uma fake news. “É muito difícil desfazer o impacto de uma informação falsa depois que ela se espalha”, explicou. Enquanto a disseminação ocorre em questão de segundos, a resposta judicial depende de processos mais lentos, que precisam respeitar garantias legais.
Nesse esforço de contenção, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) tem adotado medidas específicas. Entre elas, estão resoluções que obrigam candidatos a declararem o uso de inteligência artificial em campanhas, além da utilização de algoritmos para identificar disparos automatizados e conteúdos suspeitos.
A desinformação, porém, não se resume a notícias completamente falsas. Muitas vezes, ela se manifesta por meio da manipulação de fatos fora de contexto. Informações verídicas podem ser distorcidas ou recortadas de maneira a induzir interpretações equivocadas, ampliando o potencial de engano.
Ataques a instituições
O especialista também chamou atenção para ataques recorrentes às instituições democráticas, como as tentativas de desacreditar o sistema eleitoral brasileiro. Ele reforçou que as urnas eletrônicas são seguras e representam um dos pilares da confiabilidade do processo democrático no país.
Diante desse cenário, o enfrentamento às fake news não depende apenas das instituições, mas também da postura da sociedade. A recomendação é que os cidadãos adotem uma atitude crítica diante das informações consumidas e compartilhadas, verificando fontes e evitando a propagação de conteúdos duvidosos.
Para o especialista, a chamada “guerra contra a desinformação” é permanente e exige vigilância coletiva. O fortalecimento da democracia passa, necessariamente, pela construção de um ambiente informacional mais responsável, no qual a decisão do eleitor esteja baseada em dados confiáveis e não em narrativas manipuladas.
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