
No estado de São Paulo, mais de 700 médicos-legistas fazem um trabalho minucioso que inclui análise e interpretação de vestígios, reconstrução de eventos, identificação de vítimas e dezenas de outras atividades que permitem que a verdade sobre os fatos seja completamente revelada. Somente no ano passado foram realizados 500 mil exames no Estado de São Paulo.
Os médicos-legistas, que integram a Superintendência da Polícia Técnico-Científica (SPTC), realizam, majoritariamente, exames de corpo de delito, avaliação de lesões corporais, atendimento a vítimas de violência doméstica, perícia em casos de violência sexual e até constatação de embriaguez ou uso de substâncias.
Para o diretor do IML, Vladimir Alves dos Reis, a característica mais importante para um médico que deseja seguir nessa carreira é a empatia. “Sempre passo para a equipe que eles são os profissionais especializados naquele segmento, mas, antes de tudo, são seres humanos que precisam se colocar no lugar dos outros, inclusive no de um familiar enlutado esperando respostas concretas”, afirmou.
A médica-legista Carla Abgussen, do Núcleo de Tanatologia Forense, reforçou que o papel da área vai além do imaginário popular. “O nosso trabalho é fornecer subsídios para a investigação e para a Justiça. A gente analisa o corpo para dizer se houve ou não um crime. É uma atuação essencial para evitar tanto a impunidade quanto a condenação de inocentes”, explicou.
Ao longo das últimas décadas, a medicina-legal passou por transformações significativas, tanto do ponto de vista estrutural quanto tecnológico. Segundo o diretor do IML, uma das principais mudanças foi a criação da Superintendência da Polícia Técnico-Científica, que consolidou a atuação pericial no estado. Antes, o IML era um setor da Polícia Civil.
Além disso, o avanço tecnológico ampliou a precisão e a agilidade dos exames. “Hoje nós temos tomografia, scanners corporais, evolução nas técnicas de DNA e identificação. Tudo isso contribui para um trabalho mais rápido e mais eficiente”, destaca Vladimir.
Essa evolução fica evidente em grandes ocorrências. Em acidentes em massa, como a queda de uma aeronave em Vinhedo, o trabalho integrado das equipes permitiu a identificação das vítimas em poucos dias em um cenário muito diferente do que ocorria décadas atrás.
A médica-legista Carla destacou que, além da tecnologia, o trabalho em campo também faz diferença. “No caso da queda do avião em Vinhedo, a presença das equipes periciais desde o início, com médicos-legistas, peritos e papiloscopistas, ajudou a preservar vestígios e facilitou a identificação. Isso impactou diretamente na rapidez e na qualidade do resultado”.
Se antes o IML era associado quase exclusivamente à morte, hoje a instituição tem ampliado sua atuação com foco no atendimento à população e na humanização dos serviços.
“O Instituto Médico Legal deixou de ser visto como um local voltado apenas para cadáveres e passou a ser um espaço de atendimento à sociedade”, afirmou o diretor do IML.
Entre as iniciativas estão equipes voltadas à busca de familiares de pessoas não identificadas, atendimento especializado a vítimas de violência sexual e doméstica, além da implantação de estruturas como as salas Lilás, criadas para acolher vítimas em ambientes mais adequados e humanizados.
“Mais de 90% do nosso trabalho é feito com pessoas vivas. Então, nada mais justo do que direcionar nossos esforços para atender bem quem precisa de resposta”, completou Vladimir.
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