
A concha acústica do Centro de Criatividade ficou lotada na noite do último sábado, 31 de outubro, durante o encerramento da segunda edição do Festival Sergipanidade. O público acompanhou os shows de quatro artistas sergipanos que encerraram três dias de atividades gratuitas dedicadas à produção cultural do estado, com música, artes visuais, audiovisual, saberes tradicionais e manifestações populares.
Realizado com recursos da Política Nacional Aldir Blanc de Fomento à Cultura (PNAB), o Festival Sergipanidade é uma iniciativa do Governo de Sergipe, por meio da Fundação de Cultura e Arte Aperipê (Funcap), em parceria com a Secretaria de Estado do Trabalho, Emprego e Empreendedorismo (Seteem) e a Secretaria Especial da Cultura (Secult).
A banda Rock7Nove abriu a programação com releituras de sucessos de artistas como O Rappa, Charlie Brown Jr., Cazuza, Legião Urbana e CPM 22. Formado em Aracaju, em 2019, o grupo também apresentou uma versão roqueira de 'Chamego Só', famosa composição de Rogério.
Para o vocalista Ricardo Cosmo, participar do festival foi uma oportunidade de mostrar que a produção musical do estado é diversa. “Sergipe realmente é o país do forró, mas também é o país da diversidade musical e cultural, é o país do rock, é o país do arrocha e tantos ritmos. A gente está muito feliz de participar desse momento. Fizemos tudo aqui de coração, porque amamos Sergipe”, afirmou.
Na sequência, Patrícia Polayne apresentou o espetáculo 'O Comboio da Ilusão', trabalho autoral que transita entre o pop, o baião, a bossa nova e o piseiro. A cantora e compositora incorpora à sua produção referências da cultura popular, dos folguedos e das paisagens sergipanas.
Ao falar sobre a construção de sua identidade artística, Patrícia destacou a influência da cultura local em seu processo criativo. “Sergipe é a minha principal fonte de inspiração desde sempre. Foi quando eu senti que pertencia a algum lugar e a alguma cultura, e a partir daí comecei a compor, trazendo esses elementos. O álbum que a gente está trazendo hoje para o Festival Sergipanidade também traz muitos aspectos da cultura sergipana, os ritmos, os folguedos, todo um dialeto, toda uma geografia que faz parte desse lugar. Poder fazer poesia através dessas imagens é um privilégio”, contou.
O reggae roots tomou conta da concha acústica com a apresentação da banda Reação. Com uma trajetória ligada à periferia de Aracaju, o grupo aborda em suas composições temas como desigualdade social, racismo e cotidiano das comunidades. A música também acompanha ações desenvolvidas junto à juventude.
O vocalista Júnior Moziah falou sobre a relação entre a história da banda e as mensagens presentes em seu repertório. “É uma grande alegria estar no berço da banda Reação, onde nós onde nós nascemos, onde nós fazemos muitas músicas e criamos identidade preta e consciência étnica. A banda traz justamente muita consciência, muita emoção e coração em todas as apresentações, e acredito que o público sentiu isso”, afirmou.
O último show ficou por conta de Pardal, que subiu ao palco à meia-noite. Com repertório autoral, o artista levou ao festival canções que abordam ancestralidade, fé e enfrentamento à intolerância religiosa. A apresentação também trouxe reflexões sobre pertencimento e identidade, em diálogo com a proposta do evento. “O show especial que preparamos fala de nós, fala de mim, de você e de quem nós somos. O evento é de extrema importância, é uma iniciativa muito importante para nós, sergipanos. Temos que exercitar a nossa sergipanidade. Já dizia a minha mais velha, quem sabe de onde vem sabe para onde vai. Saber que somos sergipanos, na nossa cidade e no nosso estado, é extremamente potente”, declarou.
Acessibilidade na programação
A última noite contou com interpretação em Libras, realizada por quatro intérpretes e dois coordenadores do Instituto Pedagógico de Apoio à Educação do Surdo de Sergipe (Ipaese). A equipe acompanhou as apresentações musicais, permitindo que pessoas surdas tivessem acesso às letras das canções e às mensagens transmitidas pelos artistas.
A intérprete Vívian Souza destacou a importância de garantir esse acesso aos eventos culturais. “Hoje vieram muitos surdos e eles aproveitar bem porque tem acessibilidade. Isso é muito importante tanto para valorizar a comunidade surda quanto o nosso trabalho, que passa a ser visto cada vez mais como necessário”, explicou.
Público aprova
Entre as pessoas que acompanharam os shows estava Ana Carla Silva, que foi ao festival com o marido. Para ela, a programação contribui para aproximar o público dos artistas que produzem música em Sergipe. “Eu gosto demais, porque isso fortalece a cultura do estado. As pessoas, às vezes, não conhecem os locais de onde moram, então esse é um incentivo muito importante. Também é oportunidade de conhecer bandas novas e fortalecer o pessoal daqui do estado. Esses eventos são importantes para fomentar a cultura dentro do próprio estado”, avaliou.
O estudante Matheus Santos destacou a escolha do Centro de Criatividade como local de realização do festival. “O Festival Sergipanidade para mim é algo incrível, principalmente o local que eles escolheram, aqui na Maloca. Além desse trabalho lindo e minucioso que foi reunir todos os artistas, desde a parte de música até as oficinas, eu achei muito massa”, comentou.
Três dias de programação
A segunda edição do Festival Sergipanidade reuniu diferentes atividades ao longo de três dias. Foram realizadas nove oficinas de saberes tradicionais, duas rodas de conversa, duas sessões do Cine Sergipanidade, com oito produções locais, e um desfile com oito looks de três estilistas contemplados pela Lei Paulo Gustavo (LPG). A programação também contou com feira de artesanato e economia criativa nas três noites, cortejo com dez grupos de cultura popular pelas ruas do entorno e dez apresentações musicais.
Com o tema 'Nossa gente, nossas raízes, nossa identidade', o festival ocupou o Centro de Criatividade com expressões de diferentes territórios e linguagens artísticas. Na noite de encerramento, a diversidade de estilos e trajetórias dos artistas mostrou diferentes caminhos da música produzida em Sergipe e concluiu três dias de programação voltados à valorização da cultura e da identidade sergipanas.















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