
O Brasil pode estar procurando um novo presidente. Augusto Cury está procurando algo ainda mais difícil: uma nova maneira de chegar à Presidência.
Durante anos, Cury construiu sua autoridade em um território distante das disputas partidárias. Seus livros, palestras e entrevistas o tornaram conhecido por traduzir ansiedade, comportamento, educação e relações humanas para um público amplo.
Agora, a linguagem mudou.
O que antes era apresentado como uma reflexão sobre a vida passou a ser apresentado como uma proposta para o país. O que antes era uma conversa sobre o indivíduo passou a ser uma conversa sobre o Estado. O que antes dependia da credibilidade de um autor passou a depender da confiança de um eleitor.
A candidatura de Augusto Cury é, portanto, mais do que a entrada de um escritor na política. É o teste de conversão de uma reputação pessoal em autoridade de governo.
E essa conversão não é automática.
Um autor pode ser reconhecido sem ser um líder político. Um líder político pode ser popular sem conseguir governar. Um candidato pode crescer nas pesquisas sem ter demonstrado que possui uma coalizão capaz de sustentar suas promessas.
É nessa distância entre ser conhecido, ser escolhido e conseguir governar que começa a história política de Cury.
A candidatura de Cury pelo Avante coloca em cena uma contradição que acompanha quase toda tentativa de renovação política no Brasil.
O candidato de fora precisa de dentro.
Precisa de partido, estrutura, alianças, financiamento, tempo de propaganda, organização territorial e capacidade de negociação. Precisa, enfim, dos mecanismos de poder que sua própria imagem de outsider pode sugerir que pretende superar.
O Avante, por sua vez, possui uma trajetória partidária própria. A legenda apoiou Lula em 2022, mas esse dado não determina automaticamente a identidade ideológica de todos os seus candidatos. A filiação de Cury precisa ser analisada em conjunto com suas declarações, seu programa e suas alianças efetivas.
O partido é uma estrutura. A candidatura é uma tentativa de dar sentido a essa estrutura.
A pergunta decisiva é:
Cury está usando o partido para chegar ao poder ou está tentando reorganizar o partido ao redor de sua própria marca?
A resposta não está em uma fotografia de campanha. Está nos documentos, nas negociações, nos nomes que participam da construção do programa e na forma como a candidatura distribui poder.
A aproximação de Cury com Marina Silva, em 2009, é um episódio relevante de sua trajetória política.
Segundo reportagem da Folha de S.Paulo, Marina, então preparando sua candidatura presidencial pelo PV, o convidou a se filiar ao partido e colaborar na formulação de propostas para seu plano de governo, especialmente na educação. A participação não teria avançado de forma efetiva.
O episódio permite uma conclusão precisa:
Cury já circulou por um ambiente político associado ao campo progressista.
Mas não permite uma conclusão automática:
Cury é, por isso, um candidato de esquerda.
A diferença parece pequena. Não é.
Uma aproximação política pode revelar interesse, afinidade temática ou oportunidade de colaboração. Não necessariamente revela uma identidade ideológica permanente.
Marina Silva, aliás, não cabe confortavelmente em uma caricatura de esquerda ou direita. Sua trajetória reúne ambientalismo, políticas sociais, institucionalidade e diferentes alianças partidárias.
Transformar aquele episódio em uma acusação seria reduzir a apuração.
O passado de Cury não deve ser usado para condená-lo. Deve ser usado para fazer perguntas melhores.
O que mudou entre o escritor que se aproximou de Marina e o candidato que hoje procura dialogar com eleitores conservadores, liberais e antipolarização?
Houve uma mudança de convicções?
Uma mudança de estratégia?
Ou uma combinação das duas?
A reportagem precisa descobrir. Não presumir.
Em encontro com evangélicos, Cury afirmou ter uma “mente capitalista e um coração social”. Também defendeu meritocracia, família, empreendedorismo, liberdade de expressão e um Estado mais eficiente.
A frase é politicamente eficiente porque combina dois vocabulários que costumam aparecer separados.
De um lado, o vocabulário do mercado, da responsabilidade individual e da eficiência.
De outro, o vocabulário da proteção social, da educação e da preocupação com o sofrimento humano.
Essa combinação pode ampliar uma candidatura.
Mas também cria uma obrigação.
Quanto mais ampla a identidade política, mais precisa precisa ser a proposta de governo.
Se Cury defende responsabilidade fiscal, precisa explicar quais despesas pretende reduzir, quais prioridades pretende preservar e como pretende financiar suas políticas sociais.
Se defende um Estado mais eficiente, precisa explicar quais estruturas serão reformadas, quais serviços serão ampliados e quais grupos serão afetados.
Se defende pacificação, precisa explicar como pretende governar quando a pacificação exigir uma escolha que desagrade parte do país.
A política não testa apenas a coerência de uma frase.
Testa a capacidade de pagar o preço das escolhas.
O crescimento de Cury nas pesquisas, se confirmado pelos levantamentos disponíveis, é relevante não porque o coloque automaticamente próximo da vitória, mas porque pode alterar o cálculo dos adversários.
Uma candidatura que antes era tratada como periférica passa a ser observada como variável.
Mas há uma diferença fundamental entre crescer e consolidar-se.
Crescimento é movimento.
Consolidação é resistência.
Resistência ao ataque dos adversários. Ao escrutínio da imprensa. À exposição de um programa de governo. À necessidade de responder a perguntas que não podem ser resolvidas por uma frase de efeito.
O desafio de Cury é transformar reconhecimento em confiança.
E confiança, em uma eleição presidencial, exige mais do que reconhecimento.
Exige consistência.
A expressão “terceira via” costuma ser usada como se descrevesse um espaço ideológico pronto para ser ocupado.
Não descreve.
Ela descreve uma operação política.
É a tentativa de construir uma candidatura que não seja identificada integralmente com nenhum dos polos dominantes, mas que consiga atrair eleitores de diferentes campos.
Essa operação pode ser inteligente.
Também pode ser instável.
O candidato precisa ser suficientemente diferente para representar mudança, mas suficientemente previsível para não assustar o eleitor.
Precisa criticar os polos sem alienar todos os seus eleitores.
Precisa defender valores sem se tornar prisioneiro de uma única identidade.
Precisa apresentar um programa próprio sem perder a capacidade de formar alianças.
O centro não é ausência de conflito. É uma maneira de administrar conflitos.
E é justamente aí que a candidatura de Cury será testada.
A linguagem de Cury tem uma vantagem evidente: ela oferece ao eleitor uma interpretação do sofrimento, da ansiedade, da educação e das relações humanas.
Mas o Estado não funciona apenas pela capacidade de compreender emoções.
Ele funciona por meio de instituições, orçamento, legislação, burocracia, negociação e decisões que produzem consequências concretas.
Um presidente precisa governar uma federação complexa. Precisa lidar com governadores, prefeitos, Congresso, Judiciário, mercado, servidores, forças de segurança e uma sociedade com interesses conflitantes.
Um país não é uma sessão de terapia.
A frase não é uma crítica à saúde mental. É uma advertência contra a substituição da política por metáforas.
O Brasil precisa de políticas públicas de saúde mental.
Mas precisa também de financiamento, gestão, avaliação de resultados e capacidade de execução.
A pergunta não é se Cury sabe falar sobre o sofrimento humano.
A pergunta é:
Como ele pretende transformar essa compreensão em política pública?
Cury apresenta propostas de reformas institucionais, incluindo o semipresidencialismo e mudanças no funcionamento de instituições de Estado.
Essas ideias merecem ser examinadas não apenas pelo impacto retórico, mas pelas consequências.
O semipresidencialismo, por exemplo, não é apenas uma mudança de nomenclatura. Envolve uma reorganização da relação entre Executivo, Legislativo e formação de governo.
Uma reforma institucional não pode ser avaliada apenas pela promessa de eficiência.
Precisa ser avaliada pelo que altera no equilíbrio de poderes.
O mesmo vale para qualquer proposta de mudança no Judiciário.
A pergunta jornalística não é se a proposta parece forte. É quem ganha poder com ela, quem perde poder e quais mecanismos de controle permanecem.
É nesse ponto que a reportagem deixa de ser uma análise de campanha e passa a ser uma análise de Estado.
A pergunta mais importante sobre uma candidatura presidencial raramente é respondida pelo candidato sozinho.
Ela exige olhar para a estrutura.
Quem participa da construção do programa?
Quem define a estratégia?
Quem financia a campanha?
Quem organiza a comunicação?
Quem negocia alianças?
Quem será responsável por transformar promessas em decisões?
No caso de Cury, essas perguntas são especialmente relevantes porque sua imagem pública foi construída fora da política tradicional.
Quanto mais pessoal é a marca de um candidato, mais importante é investigar a estrutura que existe atrás dela.
Uma candidatura pode parecer independente e, ainda assim, depender de uma rede de interesses.
Pode parecer apartidária e, ainda assim, ser sustentada por uma engenharia partidária complexa.
Pode parecer espontânea e, ainda assim, ser resultado de uma estratégia cuidadosamente organizada.
Nada disso é, por si só, irregular.
Mas tudo isso é jornalisticamente relevante.
Se os adversários de Cury quiserem enfrentá-lo com seriedade, deveriam evitar a acusação fácil de que ele é “de esquerda disfarçado”.
A acusação pode produzir barulho.
Mas barulho não é necessariamente credibilidade.
A pergunta mais forte seria:
Qual é o projeto de poder de Augusto Cury?
Quem serão seus aliados?
Qual será sua política econômica?
Como pretende formar maioria no Congresso?
Como pretende financiar suas promessas?
Como pretende enfrentar a segurança pública?
Como pretende lidar com as instituições?
Como pretende governar um país em que a polarização não é apenas um problema de comunicação, mas uma estrutura de poder?
Essas perguntas obrigam o candidato a sair do território confortável da identidade e entrar no território difícil da responsabilidade.
É ali que uma candidatura deixa de ser uma promessa de mudança e começa a ser examinada como possibilidade de governo.
A candidatura de Augusto Cury revela algo sobre o Brasil de 2026.
O eleitorado pode estar cansado da polarização.
Mas isso não significa que tenha deixado de desejar identidade.
Pode querer mudança sem ruptura.
Pode querer valores sem radicalização.
Pode querer eficiência sem abandono social.
Pode querer um candidato diferente sem necessariamente querer um sistema diferente.
Essa é a contradição que Cury tenta ocupar.
Ele precisa parecer suficientemente novo para representar mudança e suficientemente sólido para representar governo.
A primeira tarefa depende de sua imagem.
A segunda depende de sua estrutura.
A primeira pode ser acelerada por uma campanha.
A segunda precisa ser demonstrada.
Augusto Cury não precisa ser classificado como esquerda ou direita para ser compreendido politicamente.
Sua candidatura é mais interessante do que isso.
Ela representa uma tentativa de transformar uma reputação construída fora da política em uma força capaz de disputar o poder nacional.
Sua aproximação anterior com Marina Silva é um dado relevante de sua trajetória.
Sua filiação ao Avante é um dado relevante de sua estratégia.
Seu crescimento nas pesquisas, se confirmado, é um dado relevante de seu momento eleitoral.
Mas nenhum desses elementos, isoladamente, define o que ele será como presidente.
O que definirá sua candidatura será a capacidade de responder às perguntas que o eleitor brasileiro inevitavelmente fará:
Quem governará com ele?
Qual será o preço de suas escolhas?
Quem será beneficiado?
Quem será contrariado?
E o que, exatamente, Augusto Cury pretende fazer com o poder que agora tenta conquistar?
A resposta poderá transformar sua candidatura em algo maior do que uma novidade eleitoral.
Ou poderá revelar que o Brasil não estava procurando um novo projeto de poder.
Estava apenas procurando uma nova maneira de falar sobre o velho problema da política.
Por enquanto, Cury é uma possibilidade. A eleição dirá se ele conseguirá se tornar uma força.
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