
Como iluminação, mobilidade, circulação de pessoas e preservação de espaços públicos influenciam a segurança de mulheres e meninas? Essa é uma das questões que orientam a metodologia Cidade Mulher — ferramenta participativa do Programa das Nações Unidas para os Assentamentos Humanos (ONU-Habitat) que coloca as experiências de quem vive e utiliza os territórios no centro da análise sobre segurança urbana.
Em Alagoas, a metodologia foi o centro de ações realizadas pelo Governo do Estado e pelo ONU-Habitat no âmbito do programa Visão Alagoas 2030, em apoio à Política de Enfrentamento à Violência Doméstica e Familiar contra a Mulher – Alagoas Lilás. Nos dias 20 e 26 de agosto, em Maceió, dois eventos apresentaram os principais resultados das ações realizadas no primeiro semestre de 2026: o “Encontro Cidade Mulher – Juventudes por cidades mais seguras”, com estudantes da rede estadual, e o “Seminário Cidade Mulher – Fortalecendo a rede Alagoas Lilás”, voltado a agentes públicos de diferentes órgãos estaduais. As devolutivas retomaram, respectivamente, as oficinas realizadas com estudantes e a formação promovida com equipes técnicas estaduais.
A experiência das oficinas também foi registrada em vídeo, com momentos de cartografia coletiva, caminhadas exploratórias e relatos das estudantes sobre os espaços e trajetos que fazem parte de seu cotidiano. A produção mostra como essas experiências contribuíram para identificar desafios e construir propostas para os territórios.
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Construção coletiva
O encontro com estudantes apresentou o diagnóstico e as propostas construídas nas oficinas realizadas em março nos bairros de Ponta Grossa, Jacintinho e Benedito Bentes. Ao todo, as oficinas reuniram 81 estudantes do Ensino Médio, com idades entre 14 e 20 anos, que analisaram especialmente os trajetos entre a casa e a escola e os fatores urbanos relacionados à sensação de segurança.
Entre os desafios recorrentes, estavam: iluminação insuficiente, dificuldades de mobilidade e acessibilidade, baixa circulação de pessoas e problemas de conservação dos espaços públicos. Os relatos também mostraram como essas condições influenciam comportamentos cotidianos, levando estudantes a evitar determinados lugares e horários, alterar trajetos ou adotar outras estratégias de autoproteção.
A partir dessa leitura, foram propostas melhorias na infraestrutura viária, nas calçadas, na acessibilidade, na sinalização, nas travessias e no transporte público; requalificação de áreas de lazer, cultura e convivência; arborização e limpeza urbana; ampliação da iluminação e de medidas de prevenção da violência; e maior acesso a serviços de saúde, educação, assistência social e à rede de proteção às mulheres.
“A devolutiva é uma etapa importante porque permite apresentar o que foi construído a partir da participação das estudantes. O diagnóstico não foi elaborado apenas a partir de uma análise técnica, mas principalmente a partir dos olhares e das experiências vivenciadas nos territórios”, destacou a coordenadora do Visão Alagoas 2030, Paula Zacarias.
Para a moradora do Benedito Bentes e estudante da Escola Estadual Marcos Antônio Cavalcanti Silva, Emilly Teixeira, pensar em segurança também passa pela qualidade dos espaços utilizados no dia a dia. “Nas propostas, a gente pensou bastante no nosso lazer e também na nossa segurança, porque muitos locais por onde fazemos o deslocamento até o colégio têm pouca segurança e pouca iluminação”, afirmou.
Durante o encontro, os estudantes também conheceram melhor os serviços públicos disponíveis para prevenção e atendimento em situações de violência contra as mulheres. Representantes da Rede de Atenção às Violências (RAV) e do Centro Especializado de Atendimento à Mulher (CEAM) apresentaram a atuação da rede de proteção e os caminhos para buscar acolhimento e atendimento.
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Diálogo institucional
Já o “Seminário Cidade Mulher – Fortalecendo a rede Alagoas Lilás” apresentou a agentes públicos estaduais um panorama dos resultados das oficinas participativas e da formação Cidade Mulher, realizada em abril, que reuniu servidoras e servidores de órgãos e secretarias estaduais em um treinamento sobre gênero, prevenção da violência urbana e direito à cidade.
A formação abordou as dimensões da violência de gênero, as desigualdades no uso da cidade e o papel dos agentes públicos na construção de respostas articuladas, buscando ampliar a compreensão sobre como uma perspectiva de gênero pode ser incorporada às políticas públicas e às ações de prevenção da violência.
Ao apresentar os resultados das oficinas e da formação, o seminário colocou em diálogo diferentes perspectivas produzidas ao longo da iniciativa: de um lado, as experiências das jovens sobre segurança urbana e as propostas construídas a partir da leitura dos territórios; de outro, a perspectiva dos agentes públicos sobre os desafios e possibilidades de atuação institucional. O encontro reforçou a importância de aproximar a experiência de quem vivencia os territórios da atuação das instituições responsáveis pela formulação e implementação de políticas públicas.
“Ao reunir os dois resultados, as devolutivas ajudam a aproximar a atuação institucional das experiências vividas nos territórios e a ampliar o diálogo entre diferentes áreas envolvidas no enfrentamento da violência contra as mulheres. Essa aproximação é importante para que as respostas da gestão estadual considerem as diferentes realidades e necessidades presentes nos territórios, fortalecendo a implementação da política Alagoas Lilás e contribuindo para uma atuação cada vez mais integrada e conectada às realidades das mulheres no estado”, afirmou a assessora especial de projetos da Secretaria de Estado da Governança Corporativa, Ana Cristina Farias.
Resultados e produtos
Como resultados dessas duas frentes, o Cidade Mulher prevê um diagnóstico territorial com recomendações para cidades mais seguras, elaborado a partir das oficinas com estudantes, e a Caixa de Ferramentas Cidade Mulher, desenvolvida a partir da formação com agentes públicos e composta por referências, conceitos e termos sobre gênero, violência e direito à cidade. Os produtos sistematizam os aprendizados das atividades e contribuirão para incorporar a perspectiva de gênero e as experiências vividas nos territórios em ações de prevenção da violência e promoção de cidades mais seguras e inclusivas.
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