
Investigação financeira
Empresário aparece como “ganhador” em 570 registros que somam R$ 176 milhões; caso reacende um método conhecido há décadas pelos órgãos de controle: comprar, concentrar ou transferir bilhetes premiados para tentar dar aparência legal a dinheiro de origem suspeita
Por Cykela Neto
A história parece nova.
O roteiro, não.
Nesta quinta-feira, 24 de setembro de 2026, uma nova fase da Operação Carbono Oculto colocou novamente sob os holofotes um fenômeno que atravessa décadas de investigações financeiras no Brasil: pessoas que aparecem, repetidamente, como beneficiárias de uma quantidade extraordinária de prêmios de loteria.
O personagem da vez é o empresário Antônio Carlos Freixo Júnior, conhecido como “Mineiro”.
Segundo o Ministério Público de São Paulo, Freixo aparece como “ganhador” em 570 comunicações relacionadas a prêmios e apostas, num montante aproximado de R$ 176 milhões, entre 2020 e 2025.
Os dados constam de relatório de inteligência financeira do Conselho de Controle de Atividades Financeiras, o Coaf, utilizado para embasar a investigação.
A dimensão chama atenção.
Mas, para investigadores especializados em lavagem de dinheiro, existe uma pergunta mais importante do que saber se alguém teve uma sequência quase inacreditável de sorte:
É nessa pergunta que começa uma história que remonta a pelo menos três décadas.
Freixo é alvo da terceira fase da Operação Carbono Oculto, investigação que apura suspeitas de lavagem de dinheiro relacionadas ao setor de combustíveis.
Segundo o MP-SP, além dos registros envolvendo prêmios e apostas, outras movimentações financeiras atribuídas ao empresário também foram classificadas como suspeitas. A investigação sustenta que ele teria atuado na movimentação de recursos para integrantes do grupo investigado — acusação que ainda precisa ser demonstrada no processo.
É importante fazer uma distinção.
A existência de 570 comunicações em que Freixo aparece como “ganhador” não significa, necessariamente, que ele tenha comprado pessoalmente 570 bilhetes e acertado 570 sorteios.
No sistema de inteligência financeira, o dado relevante é que seu nome aparece repetidamente ligado ao recebimento ou movimentação de valores classificados como prêmios e apostas.
Segundo a investigação relatada nesta quinta-feira, o padrão inclui movimentações que despertaram suspeitas de triangulação financeira.
É justamente aí que surge um método conhecido há muito tempo pelos órgãos de investigação.
Para lavar dinheiro por meio de um prêmio de loteria, não é necessário manipular bolas, fraudar concursos nem corromper o sistema de sorteio.
O prêmio pode ser absolutamente verdadeiro.
O bilhete também.
O que pode mudar de mãos é o direito econômico sobre ele.
Imagine que uma pessoa ganhou legalmente R$ 500 mil.
Antes de resgatar o prêmio, recebe uma proposta:
Para o verdadeiro ganhador, o negócio pode parecer atraente: recebe R$ 50 mil a mais.
Para quem compra o bilhete, os R$ 50 mil representam um custo.
Em compensação, ao apresentar aquele prêmio e registrar seu recebimento, passa a possuir uma justificativa aparentemente legítima para a entrada de R$ 500 mil em seu patrimônio.
O sorteio continua verdadeiro.
O prêmio continua verdadeiro.
O problema está na eventual negociação clandestina realizada depois da aposta e antes — ou em torno — do recebimento.
É por isso que, em investigações dessa natureza, o foco não está apenas nos números sorteados.
Está no caminho do dinheiro.
Para reconstruir uma possível operação de lavagem, investigadores procuram responder a perguntas básicas:
Quem comprou originalmente o bilhete?
Quem fez a aposta?
Quem estava com o bilhete depois do sorteio?
Em nome de quem o prêmio foi pago?
Para qual conta o dinheiro foi enviado?
Houve repasse posterior para outra pessoa ou empresa?
Existe relação entre o verdadeiro apostador e o beneficiário final?
Uma única premiação não necessariamente chama atenção.
Duas ou três também podem ser perfeitamente explicáveis.
Mas dezenas — ou centenas — de ocorrências ligadas ao mesmo CPF formam um padrão que os sistemas de prevenção à lavagem passaram a tratar como sinal de alerta.
A história mostra por quê.
Em fevereiro de 2007, documentos do Coaf chegaram ao plenário do Senado.
O então senador Álvaro Dias afirmou ter recebido 29 relatórios de inteligência financeira referentes ao período entre 2002 e 2006.
Segundo o pronunciamento, os documentos identificavam operações consideradas suspeitas envolvendo 75 pessoas e valores superiores a R$ 32 milhões.
Alguns números causaram espanto.
Um dos beneficiários citados aparecia associado a 525 prêmios, no valor aproximado de R$ 3,8 milhões.
Outro, a 327 prêmios, somando cerca de R$ 1,6 milhão.
Um terceiro aparecia relacionado a 206 premiações em sete modalidades diferentes.
Mas um registro era ainda mais incomum.
Segundo o relato apresentado ao Senado, uma pessoa teria recebido 107 prêmios em um único dia.
Os bilhetes correspondiam a concursos realizados em datas diferentes — alguns separados por até um mês — e envolviam sete modalidades lotéricas.
O detalhe muda completamente a perspectiva.
E passa a ser:
Essa é exatamente a lógica que alimenta a hipótese de concentração ou compra de bilhetes vencedores.
Quatro anos antes, em maio de 2003, um levantamento do Coaf já havia revelado dezenas de beneficiários considerados atípicos.
Entre eles estava José Eugênio da Silva.
Segundo os registros divulgados na época, ele teria recebido 211 prêmios em apenas dez meses, totalizando aproximadamente R$ 1,91 milhão.
Os pagamentos variavam de menos de R$ 1 mil a quase R$ 68 mil.
Outro caso chamava ainda mais atenção.
Marco Antonio Surjan Trofo aparecia como beneficiário de 327 prêmios entre abril de 2000 e outubro de 2001, que somavam cerca de R$ 1,58 milhão.
Os pagamentos ocorreram em apenas 48 dias diferentes.
Na prática, eram quase sete prêmios por data de pagamento.
Procurado pela Folha na época, Trofo disse desconhecer as premiações atribuídas a ele.
Também apareceram registros ligados aos irmãos Amauri, Adilson e Alécio Pedro Gouveia, associados a centenas de premiações e aproximadamente R$ 3,77 milhões.
Nenhum desses números, isoladamente, constituía prova de lavagem.
Eles funcionavam como aquilo que o sistema financeiro chama de sinal de alerta.
A partir daí, seria necessário descobrir a origem efetiva dos bilhetes e dos recursos.
Antes dos relatórios do Coaf, porém, outro caso já havia transformado a relação entre fortuna e prêmios lotéricos em tema nacional.
Durante a CPI do Orçamento, em 1993, o então deputado federal João Alves de Almeida precisou explicar a origem de um patrimônio considerado incompatível com seus rendimentos conhecidos.
Parte da explicação envolvia uma sequência impressionante de vitórias na loteria.
Segundo registros posteriormente divulgados, João Alves alegava ter recebido 221 prêmios.
Ele se tornaria um dos personagens centrais do escândalo dos chamados “Anões do Orçamento”.
Em março de 1994, renunciou ao mandato antes que fosse concluído o processo político que poderia resultar em sua cassação.
O episódio se tornou tão conhecido que, anos depois, quando novos ganhadores recorrentes apareceram nos relatórios do Coaf, João Alves voltou a ser citado como precedente no próprio Senado.
A partir dali, a figura do “ganhador contumaz” passou a fazer parte do vocabulário das investigações brasileiras sobre lavagem de dinheiro.
Durante a CPI do Orçamento, o então deputado João Alves explicou parte de sua movimentação patrimonial afirmando ter sido premiado repetidamente nas loterias.
Número atribuído: 221 premiações.
O caso se tornou símbolo nacional do uso de ganhos lotéricos para justificar patrimônio questionado.
Relatórios de inteligência financeira identificam dezenas de pessoas com uma frequência incomum de recebimentos lotéricos.
Entre os casos divulgados:
José Eugênio da Silva: 211 prêmios em dez meses.
Marco Antonio Surjan Trofo: 327 prêmios entre 2000 e 2001.
Família Gouveia: centenas de premiações e aproximadamente R$ 3,77 milhões em recebimentos relatados.
Documentos do Coaf apresentados no Senado mencionam beneficiários com:
e um caso no qual teriam sido recebidos:
A hipótese de compra e concentração de bilhetes premiados ganha força como mecanismo investigado para lavagem.
Antônio Carlos Freixo Júnior aparece em 570 comunicações relacionadas a prêmios e apostas, que somam aproximadamente R$ 176 milhões, segundo documentos citados pelo MP-SP na Operação Carbono Oculto.
O período analisado vai de 2020 a 2025.
Há diferenças importantes entre todos esses casos.
As pessoas são diferentes.
Os valores são diferentes.
As modalidades de apostas são diferentes.
Os contextos das investigações também.
E não se pode concluir que todos os beneficiários tenham utilizado o mesmo mecanismo — nem que uma frequência extraordinária de prêmios, por si só, prove crime.
Mas existe um padrão investigativo que atravessa mais de 30 anos:
No caso de 2026, o volume financeiro torna o alerta ainda mais expressivo.
R$ 176 milhões divididos pelas 570 ocorrências representam, em média, aproximadamente R$ 309 mil por registro.
Não significa que todos tenham esse valor — alguns podem ser muito maiores e outros menores.
Mas dá uma dimensão da movimentação sob análise.
A sofisticação desse método está justamente em não precisar criar dinheiro fictício.
O dinheiro do prêmio existe.
O concurso existiu.
A Caixa ou a casa de apostas efetivamente deve o valor a alguém.
A possível lavagem ocorre quando o verdadeiro beneficiário econômico é substituído.
É uma espécie de mudança de identidade do dinheiro.
Antes, existe dinheiro cuja origem precisa ser explicada.
Depois, existe um comprovante de prêmio.
O capital não se torna lícito apenas porque passou por uma loteria.
Mas ganha uma narrativa documental capaz de dificultar sua rastreabilidade.
É por isso que a compra de bilhetes premiados aparece há décadas no radar de investigadores.
Depois dos escândalos das décadas de 1990 e 2000, os mecanismos de prevenção passaram a prestar atenção especial à reincidência.
O ponto central deixou de ser apenas:
E passou a incluir:
É uma mudança fundamental.
Um prêmio legítimo pode ser perfeitamente normal.
Mas centenas de prêmios concentrados no mesmo beneficiário criam uma assinatura financeira incomum.
Foi assim que dezenas de casos chegaram ao Coaf no passado.
E é por meio de relatórios de inteligência financeira que o fenômeno volta agora ao centro de uma grande investigação.
Apesar da força dos números, há uma fronteira que não pode ser ultrapassada sem provas.
As 570 comunicações não demonstram, sozinhas, que Antônio Freixo comprou 570 bilhetes premiados.
Também não provam, isoladamente, que os R$ 176 milhões sejam produto de lavagem.
Essa é uma hipótese investigativa que depende da reconstrução documental das operações.
Para demonstrá-la, seria necessário identificar, entre outros elementos:
É dessa trilha que pode surgir a prova.
Ou a explicação legítima.
Em 1993, foram 221 prêmios.
Em 2003, apareceram beneficiários com 211 e 327.
Em 2007, relatórios mencionaram 525 premiações e até 107 recebimentos em um único dia.
Agora, em 2026, são 570 registros e aproximadamente R$ 176 milhões.
Três décadas separam os episódios.
Mas a pergunta feita pelos investigadores permanece praticamente intacta:
A resposta não está nas bolas sorteadas.
Está no percurso do bilhete.
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