
Política
Há festas em que o anfitrião prepara a mesa, separa as cadeiras, acende as luzes e, quando chega a hora, descobre que os convidados mais importantes resolveram discutir na calçada. O último debate presidencial da Globo conseguiu algo parecido: havia estúdio, regras, câmeras, púlpitos e milhões de eleitores esperando. O que faltou foram justamente aqueles que vivem dizendo que querem falar com o povo.
Lula decidiu não comparecer e preferiu uma entrevista ao Flow Podcast. Sua coligação ainda recorreu ao TSE contra a possibilidade de a Globo exibir seu púlpito vazio e permitir perguntas dirigidas ao ausente. A ministra Estela Aranha acolheu o pedido. Depois, Flávio Bolsonaro, que estava confirmado, desistiu e chamou a decisão de “censura”. Paralelamente, Gilmar Mendes determinou que Renan Santos fosse incluído no encontro.
Diante da coleção de liminares, desistências e mudanças, a Globo cancelou tudo.
É difícil encontrar metáfora melhor para certa política brasileira: o eleitor comprou ingresso para uma assembleia e acabou assistindo à briga do síndico com o porteiro.
Lula não queria a cadeira vazia aparecendo. Flávio resolveu deixar a dele vazia também. Renan foi ao Judiciário para conquistar uma cadeira. A Globo, quando finalmente descobriu quantas cadeiras teria de colocar no palco, recolheu todas. E o cidadão, aquele personagem mencionado com devoção litúrgica em cada discurso eleitoral, ficou do lado de fora segurando o convite.
Pode-se discutir juridicamente a decisão do TSE. Pode-se discutir a autonomia editorial da Globo. Pode-se discutir a inclusão de Renan Santos. O que não deveria desaparecer no meio desse baile processual é o fato mais simples: o debate existia para que candidatos fossem confrontados diante dos eleitores. Quando os protagonistas transformam presença e ausência em instrumento estratégico, o cidadão deixa de ser interlocutor e vira cenário.
Talvez seja esse o produto político mais sofisticado da temporada: a democracia por controle remoto. Cada candidato escolhe o ambiente, o formato, o entrevistador, o risco que pretende correr e a porta pela qual prefere sair.
No Flow, Lula ainda tratou de assuntos sensíveis, inclusive crédito e endividamento. Uma proposta apresentada como limitação à multiplicidade de cartões de crédito, se transformada efetivamente em política pública, exigiria muito mais que uma frase de podcast: envolveria Banco Central, regulação, concorrência, inclusão financeira e uma indústria poderosa. Prometer enquadrar o sistema financeiro é simples diante de um microfone. O recibo vem na regulamentação.
O mesmo vale para a família. Lula afirmou em entrevistas recentes que seu filho Lulinha deve responder às investigações e que não pretende impedir apurações; ao mesmo tempo, vem atacando Flávio Bolsonaro e já o chamou de “mequetrefe”. A régua republicana, naturalmente, fica muito bonita no discurso. O teste começa quando ela precisa medir gente da própria sala.
Enquanto isso, brasileiros continuam transformando políticos em sobrenomes de família: brigam no almoço, rompem amizades, abandonam grupos, colecionam inimigos e tratam eleição como clássico de futebol. Os próprios candidatos, porém, demonstram uma disciplina bem diferente: calculam presença, audiência, risco, tribunal, enquadramento e conveniência.
A cena desta quinta-feira não prova que todos os candidatos desprezem pessoalmente seus eleitores. Seria impossível demonstrar intenção dessa natureza. Mas produziu uma imagem política devastadora: enquanto milhões esperavam confronto público, parte relevante da disputa ocorreu entre advogados, gabinetes, redes sociais e estratégias de comunicação.
O brasileiro pode continuar brigando por político como se estivesse defendendo um parente.
Só convém conferir se o político sabe seu nome.
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