
Chocolate AUTORAL
O homem que decidiu reinventar o chocolate a partir do próprio cacau
Depois de sobreviver a um AVC em 2016, Cykela Neto dedicou uma década à investigação do fruto que transformou sua trajetória. Na Fazenda Cykela, em Uruçuca, no sul da Bahia, desenvolveu um método de torrefação à luz solar e um ingrediente que chama de açúcar de cacau. Agora, prepara em Trancoso a apresentação de sua criação mais pessoal: o NEUROCACAU.
Uma história que começou quando a vida parecia interrompida
Há histórias de empreendedorismo que nascem de uma oportunidade de mercado. Outras começam com uma ideia, um investimento ou uma descoberta inesperada.
A de Cykela Neto começou em um quarto de hospital.
Era 2016. Aos 38 anos, no Mato Grosso, ele havia sofrido um acidente vascular cerebral que comprometeu os movimentos do lado direito de seu corpo. Permaneceu três dias em coma. Quando despertou, encontrou uma realidade que exigiria reconstruir aspectos fundamentais de sua vida.
Durante a internação, recebeu a visita de um amigo chamado Arthur. O presente que Arthur levou dificilmente poderia parecer mais inusitado naquele contexto: uma barra de três quilos de chocolate cru, sem o processamento convencional destinado a transformá-lo no chocolate que conhecemos.
Arthur sugeriu que ele consumisse pelo menos 200 gramas por dia.
Cykela experimentou.
O gosto era desagradável, muito distante da experiência delicada que se espera de um chocolate de qualidade. Ainda assim, persistiu, consumindo quantidades superiores às sugeridas.
No segundo dia, percebeu mudanças em sua condição. No terceiro, segundo seu relato, notou uma melhora expressiva na coordenação motora e em aspectos cognitivos, funções que haviam sido afetadas pelo AVC.
A experiência foi marcante, embora não permita estabelecer que o chocolate tenha provocado sua recuperação. A reabilitação após um acidente vascular cerebral é um processo complexo, influenciado por diferentes fatores clínicos.
Para Cykela, entretanto, aquele episódio desencadeou uma curiosidade profunda.
O chocolate de sabor tão difícil havia despertado nele o desejo de compreender o que existia dentro do fruto do cacau, e o que acontecia com suas propriedades durante a transformação industrial.
Era o início de uma investigação que acabaria redefinindo sua trajetória.
Meses depois, Cykela Neto mudou-se para a Bahia.
Sua atenção passou a se concentrar no universo do cacau: o cultivo, as variedades, as amêndoas, os processos de fermentação e secagem, os métodos industriais e as diferentes maneiras de transformar o fruto em chocolate.
O interesse se transformou em dedicação.
Cykela começou a estudar a cadeia produtiva com uma abordagem inspirada na engenharia reversa. Em lugar de aceitar cada etapa como uma condição imutável, procurava compreender sua função e investigar maneiras alternativas de alcançar os resultados desejados.
Queria descobrir onde havia espaço para fazer diferente.
Uma das questões que mais lhe chamaram a atenção foi a torrefação, etapa central na formação de parte das características sensoriais do chocolate.
Na produção convencional, o aquecimento das amêndoas contribui para o desenvolvimento de aromas e promove transformações químicas importantes. Dependendo do método, temperaturas elevadas podem ser utilizadas para atingir os resultados pretendidos.
Cykela passou a investigar o que poderia acontecer se o cacau fosse submetido a outro regime térmico.
Seu interesse estava relacionado especialmente aos compostos fenólicos presentes nas amêndoas, conhecidos por integrar o conjunto de substâncias bioativas estudadas pela ciência dos alimentos.
O processamento térmico pode modificar a concentração desses compostos. Mas a preservação efetiva depende de diversas condições, incluindo tempo, temperatura e características da matéria-prima.
Para Cykela, o desafio era formular outra pergunta: seria possível desenvolver características sensoriais agradáveis utilizando temperaturas significativamente mais baixas?
Essa questão se tornaria o centro de seis anos de experimentação.
Na Fazenda Cykela, localizada em Uruçuca, no sul da Bahia, tomou forma um método próprio de processamento térmico das amêndoas de cacau.
A proposta utiliza a energia solar e uma combinação de materiais que inclui placas de cobre, alumínio e pedras.
O contraste com a velocidade de muitos processos industriais é significativo.
Ao longo de seis anos, Cykela se dedicou ao desenvolvimento desse sistema, procurando conciliar a exposição térmica controlada e a construção de um chocolate de sabor agradável.
O método recebe na Fazenda Cykela o nome de torrefação à luz solar.
Do ponto de vista tecnológico, trata-se de uma abordagem de baixa temperatura, distinta da torrefação tradicional. Sua arquitetura de materiais, o controle do calor e o tempo prolongado compõem uma metodologia própria.
A originalidade pretendida pelo criador não está apenas na fonte de energia utilizada, mas na combinação das condições de processamento.
O desafio gastronômico continuava sendo aquele que havia surgido no hospital: transformar a intensidade do cacau cru em uma experiência de degustação refinada, sem abandonar a identidade do fruto.
Seis anos de desenvolvimento foram dedicados a essa busca.
Mas a investigação de Cykela Neto não terminaria nas amêndoas.
Havia outro elemento do fruto esperando para ocupar o centro de sua proposta.
No interior do fruto, as sementes são envolvidas por uma mucilagem úmida e naturalmente adocicada.
Dela pode ser obtido o líquido conhecido como mel de cacau, uma matéria-prima com características próprias.
Foi nesse componente que Cykela Neto encontrou a base para outro de seus desenvolvimentos.
Por meio de etapas de transformação mantidas como segredo industrial, criou um ingrediente adoçante que denomina açúcar de cacau.
O processo encontra-se, segundo seu criador, em uma iniciativa de proteção por patente.
A importância desse ingrediente para o projeto é conceitual e gastronômica.
A proposta do NEUROCACAU é desenvolver chocolate a partir de componentes provenientes do próprio fruto, incluindo o ingrediente responsável por conferir doçura à formulação.
A Fazenda Cykela apresenta essa combinação como seu diferencial de inovação.
Embora a indústria e a pesquisa internacional já explorem chocolates formulados com diferentes derivados do fruto, o método específico de obtenção do açúcar de cacau desenvolvido por Cykela Neto integra o conhecimento proprietário da marca.
A ideia que sustenta sua criação é simples de compreender, ainda que o processo tecnológico seja complexo: permitir que o cacau ocupe também o papel desempenhado habitualmente por ingredientes adoçantes de outras origens.
Nesse conceito, o fruto deixa de ser apenas a fonte da massa e da manteiga de cacau e passa a participar de maneira mais abrangente da formulação.
É essa concepção que oferece identidade ao chocolate desenvolvido na fazenda.
O nome escolhido reúne dois elementos inseparáveis da história de seu criador.
O primeiro remete à experiência neurológica que marcou sua vida em 2016.
O segundo identifica o fruto que se tornou o centro de sua pesquisa.
A marca nasce, assim, de uma trajetória profundamente pessoal, mas sua proposta comercial pertence ao universo da gastronomia.
O produto é apresentado como um chocolate artesanal, feito manualmente, sem aditivos ou conservantes, conforme a formulação descrita pela Fazenda Cykela.
A linha foi concebida com diferentes concentrações de cacau, permitindo explorar intensidades de sabor distintas.
Entre as versões apresentadas no desenvolvimento da marca está uma barra de 88%.
A filosofia de Cykela Neto é trabalhar a partir do próprio fruto, combinando o tratamento térmico solar e o ingrediente adoçante desenvolvido por seu método.
O propósito gastronômico é produzir um chocolate que una intensidade, identidade e prazer sensorial.
A história de recuperação que originou sua curiosidade permanece como parte fundamental da narrativa biográfica. Não transforma, porém, a NEUROCACAU em medicamento nem estabelece benefícios terapêuticos.
O chocolate pertence à gastronomia; a recuperação após um AVC pertence ao campo da medicina.
É a relação entre uma experiência humana e uma longa investigação artesanal que confere singularidade à trajetória de Cykela Neto.
A Fazenda Cykela, em Uruçuca, é o território de fabricação do NEUROCACAU.
É ali que Cykela Neto situa o resultado dos anos dedicados à investigação do cacau e ao desenvolvimento dos métodos que definem o produto.
A escolha do sul da Bahia encontra correspondência com a tradição cacaueira de uma região na qual o fruto possui profunda relevância agrícola, econômica e cultural.
Para o NEUROCACAU, essa relação territorial ultrapassa a localização geográfica.
O projeto nasce do conhecimento acumulado por seu criador, de sua interação com as características do fruto e de uma produção que ele descreve como inteiramente manual.
Cada barra representa a aplicação de um método construído ao longo de anos.
A fabricação artesanal também impõe uma responsabilidade particular: preservar a regularidade dos resultados sem descaracterizar os procedimentos que dão identidade ao produto.
No chocolate fino, excelência não é apenas a intensidade do sabor. Ela se expressa no equilíbrio entre aroma, textura, fusão, persistência e consistência.
Essas propriedades dependem de uma delicada relação entre ingredientes e processamento.
No caso do NEUROCACAU, a intenção de explorar componentes derivados do próprio fruto constitui o eixo dessa busca.
Se Uruçuca representa a origem produtiva do NEUROCACAU, Trancoso será o cenário escolhido para seu lançamento.
A decisão conecta o projeto a um destino brasileiro reconhecido por sua combinação de natureza, arquitetura, hospitalidade e gastronomia de alto padrão.
Em Trancoso, o luxo frequentemente se manifesta de maneira discreta: na autenticidade dos ambientes, na relação com o território, na qualidade dos materiais e na valorização de experiências pessoais.
Para uma marca como NEUROCACAU, esse ambiente oferece uma oportunidade de apresentar o produto a consumidores interessados em singularidade, procedência e criação autoral.
Entre a Fazenda Cykela e o lançamento planejado para Trancoso, o NEUROCACAU estabelece uma narrativa que une o território de produção à experiência de descoberta.
A força dessa história não depende de transformar o chocolate em símbolo de ostentação.
Ela está na autoria, na dedicação prolongada e na singularidade de seu método.
Uma das características mais interessantes da trajetória de Cykela Neto é o fato de seu projeto ter surgido de uma investigação pessoal.
Seu percurso demonstra como perguntas aparentemente simples podem conduzir a anos de experimentação.
Por que o chocolate cru apresentava um sabor tão difícil?
Quais transformações seriam realmente necessárias para desenvolver uma experiência gastronômica agradável?
Seria possível explorar outras condições de processamento térmico?
E se o próprio fruto também fornecesse o ingrediente responsável pela doçura?
Essas perguntas orientaram a busca que resultou no NEUROCACAU.
O processo de torrefação solar e o açúcar de cacau representam dois resultados centrais dessa investigação.
O primeiro reflete sua decisão de estudar o comportamento das amêndoas submetidas a um regime térmico próprio.
O segundo expressa a intenção de ampliar a participação dos componentes do cacau na formulação do chocolate.
Juntos, constituem a identidade tecnológica proposta pela Fazenda Cykela.
Sua relevância científica e industrial poderá ser ampliada por documentação técnica, estudos comparativos e pelo desenvolvimento da proteção de propriedade intelectual.
Mas, como história humana, a trajetória já apresenta uma característica singular: a disposição de transformar uma experiência de vida em um trabalho prolongado de investigação.
Em 2016, Cykela Neto se encontrava em um hospital no Mato Grosso, enfrentando as consequências de um AVC.
Naquele momento, não havia uma marca de chocolate, uma fazenda dedicada à fabricação do produto ou um lançamento planejado para Trancoso.
Havia uma barra de três quilos de chocolate cru, recebida de um amigo, e uma curiosidade que acabaria ocupando os anos seguintes.
Vieram a mudança para a Bahia, o estudo do universo do cacau, a investigação de processos, seis anos dedicados ao desenvolvimento da torrefação solar e a criação de um ingrediente adoçante proprietário.
O resultado recebeu o nome NEUROCACAU.
A trajetória contém algo que não pode ser fabricado por uma estratégia convencional de marketing: uma origem biográfica real, marcada por ruptura, curiosidade e persistência.
Cykela Neto encontrou no cacau um novo campo de conhecimento e decidiu explorar suas possibilidades por um caminho próprio.
Na Fazenda Cykela, em Uruçuca, essa investigação se transformou em chocolate. Em Trancoso, prepara-se para encontrar seu público.
O NEUROCACAU nasce de uma pergunta que acompanhou seu criador durante uma década. Sua história é a de um homem que, depois de precisar reconstruir a própria vida, decidiu também investigar outras maneiras de transformar o cacau.
E é nessa relação entre o fruto, o conhecimento e o tempo que reside a identidade mais profunda de sua criação.
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