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Educação BRASIL

O PAÍS RICO QUE PREFERE SER POBRE

O alvo chamado EDUCAÇÃO.

24/09/2026 às 23h30 Atualizada em 24/09/2026 às 23h38
Por: Redação Fonte: Folha Brasileira
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Cykela Neto
Cykela Neto

Educação e Desenvolvimento

BRASIL, O PAÍS RICO QUE NÃO CONSEGUE TRANSFORMAR RIQUEZA EM CONHECIMENTO

Recursos naturais, território, energia, agricultura e escala econômica colocam o Brasil entre os países de maior potencial do planeta. Mas uma geração chega aos 15 anos sem dominar habilidades elementares de matemática, leitura e ciência. O resultado é uma contradição que atravessa educação, produtividade, economia e poder: um país rico em ativos, mas persistentemente pobre na capacidade de transformá-los em prosperidade.

O Brasil não sofre de falta de matéria-prima.

Tem petróleo. Água. Sol. Vento. Terras agrícolas. Minérios estratégicos. Reservas de terras raras. Uma das maiores fronteiras agropecuárias tecnologicamente desenvolvidas do planeta. Um mercado interno continental. Universidades relevantes. Centros de pesquisa. Empresas sofisticadas. Uma matriz elétrica majoritariamente renovável.

Ainda assim, quando um brasileiro chega aos 15 anos e é colocado diante da mesma avaliação aplicada a estudantes de algumas das economias mais avançadas do mundo, aparece outro país.

No PISA 2022, o Brasil marcou 379 pontos em matemática, 410 em leitura e 403 em ciências.

Singapura chegou a 575, 543 e 561.

Japão: 536, 516 e 547.

Coreia do Sul: 527, 515 e 528.

Estônia: 510, 511 e 526.

A distância em matemática entre Brasil e Singapura foi de 196 pontos. Entre Brasil e Japão, 157. Entre Brasil e Coreia do Sul, 148. Entre Brasil e Estônia, 131. A média da OCDE foi 472.

Mas a média não é o dado mais perturbador.
É o que existe por trás dela.

No Brasil, apenas 27% dos estudantes atingiram pelo menos o Nível 2 de proficiência em matemática, considerado pela OCDE o patamar a partir do qual o jovem começa a conseguir interpretar situações simples matematicamente sem instrução direta.

Isso significa que aproximadamente 73 de cada 100 estudantes brasileiros de 15 anos ficaram abaixo desse nível.

Em Singapura, Japão e Estônia, mais de 85% chegaram ao Nível 2 ou acima.

No topo, a diferença é ainda mais brutal.

Apenas cerca de 1% dos brasileiros atingiu os níveis 5 ou 6 de matemática.

Em Singapura, foram 41%.

No Japão, 23%.

Na Coreia do Sul, 23%.

Na Estônia, 13%.

A média da OCDE foi 9%.

Não se trata apenas de uma competição escolar.
É uma fotografia antecipada da disputa econômica do século XXI.

A GEOPOLÍTICA COMEÇA NA SALA DE AULA

Durante grande parte do século XX, poder nacional podia ser associado principalmente a território, petróleo, população, indústria pesada, capacidade militar e reservas minerais.

Esses elementos continuam importantes.

Mas o século XXI acrescentou uma variável decisiva:

capital humano altamente qualificado.

Sem matemáticos, engenheiros, cientistas, programadores, químicos, físicos, técnicos e gestores capazes de operar sistemas complexos, recursos naturais permanecem recursos naturais.

Não viram necessariamente tecnologia.

Não viram patentes.

Não viram semicondutores.

Não viram inteligência artificial.

Não viram motores elétricos.

Não viram novos materiais.

Não viram medicamentos.

Não viram máquinas industriais de alta precisão.

Não viram poder geopolítico.

É por isso que comparar Brasil com Singapura, Japão, Coreia do Sul e Estônia não é um exercício escolar.

É uma comparação de capacidade futura de Estado e economia.

Um país que possui minerais críticos, por exemplo, pode continuar exportando concentrado mineral.

Outro desenvolve técnicas de separação.

Outro produz metais de elevada pureza.

Outro fabrica ímãs permanentes.

Outro fabrica motores.

Outro domina sistemas de defesa, veículos elétricos, robótica e geração energética que utilizam esses componentes.

A mesma tonelada de matéria-prima pode ocupar posições radicalmente diferentes na cadeia mundial de valor.

A diferença chama-se conhecimento.

TER A PEDRA NÃO SIGNIFICA TER O PODER

A discussão brasileira sobre terras raras oferece talvez a metáfora perfeita.

O país possui reservas expressivas.

Mas possuir uma jazida não equivale a possuir a tecnologia para separar, refinar, transformar e industrializar seus elementos.

O mesmo raciocínio vale para petróleo, biodiversidade, agricultura, energia e minerais estratégicos.

A riqueza moderna não está apenas em possuir recursos.
Está em saber transformá-los.

E essa capacidade começa muitos anos antes da indústria.

Começa quando uma criança aprende a ler corretamente.

Quando aprende raciocínio lógico.

Quando entende proporções.

Quando interpreta gráficos.

Quando formula hipóteses.

Quando distingue correlação de causalidade.

Quando consegue compreender um argumento complexo.

Quando aprende a testar evidências.

É exatamente esse conjunto de competências que avaliações como o PISA procuram medir.

O PROBLEMA BRASILEIRO NÃO COMEÇA NA UNIVERSIDADE

Existe uma tendência brasileira de discutir inovação olhando para o topo.

Mais universidades.

Mais centros tecnológicos.

Mais bolsas.

Mais engenheiros.

Mais pesquisadores.

Tudo isso importa.

Mas há uma questão anterior.

Para produzir uma grande população de cientistas, engenheiros e técnicos altamente qualificados, é necessário possuir uma base gigantesca de estudantes dominando matemática e ciência.

O Brasil chega aos 15 anos com apenas 27% dos alunos no nível básico ou acima em matemática.

E com cerca de 1% nos níveis superiores.

É como tentar construir um arranha-céu sobre uma fundação estreita.

A elite acadêmica brasileira existe.

Existem estudantes extraordinários.

Existem pesquisadores internacionalmente competitivos.

Existem instituições de excelência.

O problema está na escala.

Países tecnologicamente sofisticados conseguem produzir competência em massa.
O Brasil produz excelência em ilhas.

LEITURA: METADE DOS JOVENS AINDA NÃO ATINGE O NÍVEL BÁSICO

O problema não é exclusivamente matemático.

No PISA 2022, apenas 50% dos estudantes brasileiros atingiram pelo menos o Nível 2 em leitura.

A média da OCDE foi 74%.

Nesse nível, espera-se que o estudante consiga identificar a ideia principal de um texto de extensão moderada, localizar informações obedecendo determinados critérios e refletir sobre finalidade e forma textual.

Portanto, aproximadamente metade dos adolescentes avaliados no Brasil não demonstrou consistentemente esse patamar.

Esse dado transcende a escola.

Porque leitura não é apenas literatura.

Leitura significa capacidade de compreender:

um contrato;
uma notícia;
uma proposta eleitoral;
uma bula;
uma dívida;
um financiamento;
uma planilha;
um regulamento;
uma sentença;
uma estatística;
uma propaganda;
uma promessa política.

Aqui educação e democracia começam a se encontrar.

UMA POPULAÇÃO COM BAIXA PROFICIÊNCIA É MAIS VULNERÁVEL À DESINFORMAÇÃO?

É tentador responder automaticamente que sim.

Mas a ciência exige mais cuidado.

O PISA não demonstra que políticos brasileiros deliberadamente produziram educação ruim para manipular eleitores.

Não existe nesses indicadores prova de um projeto coordenado dessa natureza.

Seria metodologicamente incorreto transformar correlação em intenção.

O que os indicadores permitem dizer é diferente — e suficientemente grave.

Uma população com baixa capacidade de leitura, interpretação quantitativa e avaliação de evidências possui menos ferramentas para examinar informações complexas.

Isso pode aumentar vulnerabilidades informacionais.

Mas desinformação política envolve também identidade, emoção, polarização, redes sociais, confiança institucional, meios de comunicação e comportamento coletivo.

Pessoas altamente escolarizadas também podem acreditar em informações falsas.

Educação não imuniza ninguém contra propaganda.

Ela aumenta, porém, o repertório de instrumentos disponíveis para analisá-la.

Essa diferença é fundamental.

NÃO É PRECISO EXISTIR UMA CONSPIRAÇÃO

Existe uma maneira mais rigorosa de compreender o problema brasileiro.

Imagine um sistema político em que:

governantes possuem mandatos relativamente curtos;
resultados educacionais levam dez ou vinte anos para aparecer;
reformas profundas geram custos imediatamente;
benefícios aparecem frequentemente depois que o político deixou o poder;
grupos organizados pressionam por benefícios concretos;
e crianças, evidentemente, não possuem sindicatos eleitorais nem capacidade de lobby equivalente.

Não é necessário imaginar uma sala secreta onde políticos decidam manter crianças ignorantes.

É suficiente que os incentivos políticos favoreçam decisões de curto prazo enquanto o aprendizado exige continuidade de longo prazo.

Esse é um problema clássico de economia política.

E ele atravessa partidos e governos.

QUARENTA ANOS, MUITOS GOVERNOS, UM PROBLEMA PERSISTENTE

A estagnação educacional brasileira não pertence a uma única administração.

A OCDE observa que, depois de 2009, o desempenho brasileiro no PISA apresentou apenas pequenas oscilações, em grande parte sem significância estatística.

Isso significa que o período atravessa governos de orientações políticas distintas.

Portanto, responsabilizar exclusivamente um partido, presidente ou campo ideológico seria incompatível com a cronologia.

O problema brasileiro é institucionalmente mais profundo.

Ele atravessa eleições.

MAS O BRASIL GASTA POUCO EM EDUCAÇÃO?

A resposta é mais complexa do que parece.

Em relação ao tamanho da economia, o gasto público brasileiro com educação não é extraordinariamente baixo.

Segundo a OCDE, o Brasil destina aproximadamente 4,3% do PIB ao financiamento público da educação do ensino primário ao superior, acima da média da OCDE de 3,6% nesse recorte.

Pela metodologia COFOG do Tesouro Nacional, abrangendo governo geral, a função educação representou cerca de 5,10% do PIB em 2024, após 4,93% em 2023.

Isso destrói uma explicação simplista:

o Brasil fracassa porque não coloca dinheiro em educação.

Mas surge imediatamente outra verdade.

Como o Brasil é muito mais pobre por habitante que as economias avançadas, o gasto por estudante é baixo em termos absolutos.

A OCDE estima aproximadamente US$ 3.762 por estudante, em valores ajustados por paridade de poder de compra, do ensino primário ao superior sem P&D, algo próximo de um terço da média da organização.

Ou seja:

o Brasil faz um esforço fiscal relevante em proporção à sua renda, mas continua dispondo de poucos recursos por estudante e obtendo resultados educacionais muito baixos.

A discussão correta deixa então de ser simplesmente:

“quanto gastar?”

e passa a incluir:

onde gastar, quando gastar, como gastar e quanto aprendizado produzir com cada real.

O DINHEIRO NÃO É O ÚNICO GARGALO

O próprio PISA revela problemas dentro da escola.

No Brasil, 32% dos estudantes disseram não conseguir trabalhar adequadamente na maioria ou em todas as aulas de matemática, contra 23% na média da OCDE.

38% disseram que alunos não escutam o professor, ante 30% na OCDE.

45% relataram distração causada pelo uso de dispositivos digitais, contra 30% na média da OCDE.

E 22% dos alunos brasileiros estavam em escolas cujos diretores relatavam que a falta de professores prejudicava a capacidade de oferecer ensino.

Há ainda outro dado extraordinariamente importante.

22% dos alunos brasileiros de 15 anos disseram já ter repetido pelo menos um ano escolar.

Na média da OCDE, eram 9%.

Tudo isso custa dinheiro.

E tempo.

E capital humano.

A EDUCAÇÃO TAMBÉM REPRODUZ DESIGUALDADE — MAS A RENDA NÃO EXPLICA TUDO

Estudantes brasileiros pertencentes aos 25% socioeconomicamente mais favorecidos superaram os 25% menos favorecidos em 77 pontos de matemática.

É uma grande diferença.

Mas a OCDE permite outro experimento.

Ela compara estudantes de diferentes países situados em posições socioeconômicas internacionalmente semelhantes.

No maior grupo brasileiro desse tipo, a média em matemática foi aproximadamente 365 pontos.

Estudantes em condições socioeconômicas semelhantes na Turquia e no Vietnã obtiveram desempenho significativamente superior.

Portanto:

pobreza importa enormemente.
Mas pobreza não explica tudo.

A qualidade do sistema educacional importa.

O PARADOXO: O BRASIL CONSEGUIU COLOCAR MAIS JOVENS NA ESCOLA

A história também contém progresso.

Em 2003, aproximadamente 45% da população brasileira de 15 anos não estava representada entre aqueles que realizaram o PISA.

Em 2022, essa proporção havia caído para aproximadamente 24%.

Ao mesmo tempo, a proporção de toda a coorte de 15 anos que estava coberta pela avaliação e atingia pelo menos o nível básico em matemática aumentou de cerca de 14% para 20%.

O Brasil conseguiu fazer algo historicamente importante:

expandiu massivamente o acesso à educação.

O problema seguinte mostrou-se muito mais difícil.

Colocar o aluno na escola não significa garantir aprendizado.

A revolução do acesso aconteceu.
A revolução da aprendizagem ainda não.

E ENTÃO APARECE A PRODUTIVIDADE

Educação não existe isolada da economia.

Ao longo dos últimos 45 anos, a produtividade do trabalhador brasileiro cresceu em média apenas 0,6% por ano, segundo cálculos do Observatório da Produtividade Regis Bonelli, da FGV IBRE.

Entre 1996 e 2024, o avanço médio foi de aproximadamente 0,8% ao ano.

E cerca de 60% desse crescimento veio da agropecuária.

Em 2025, a produtividade agregada avançou apenas 0,4%, apesar do forte desempenho agropecuário.

Essa talvez seja a conexão econômica mais importante.

Países não enriquecem indefinidamente apenas colocando mais pessoas para trabalhar.

Enriquecem quando cada trabalhador consegue produzir mais valor por hora.

Isso requer máquinas.

Capital.

Infraestrutura.

Gestão.

Instituições.

Competição.

Tecnologia.

E conhecimento.

Educação não é a única variável.

Mas está profundamente conectada às demais.

O BRASIL QUE DEU CERTO PROVA QUE O PROBLEMA NÃO É GENÉTICO NEM CULTURAL

Existe uma evidência extraordinária dentro do próprio país.

O agronegócio brasileiro.

Durante décadas, pesquisa científica, genética, mecanização, correção de solos, manejo, logística, escala, empreendedorismo e inovação transformaram partes da agricultura tropical brasileira.

O resultado foi um setor capaz de competir globalmente.

A lição é poderosa.

Quando conhecimento, capital, instituições e incentivos se encontram, o brasileiro não apresenta qualquer incapacidade estrutural de produzir com alta produtividade.

O problema, portanto, não pode ser resumido a cultura nacional ou alguma suposta inferioridade da população.

As instituições importam.

Os incentivos importam.

A formação importa.

E O ESTADO BRASILEIRO POSSUI OUTRA AMARRA

Em 2025, 90,2% das despesas primárias federais submetidas aos limites fiscais eram obrigatórias, segundo o Tribunal de Contas da União.

Isso significa que grande parte do orçamento federal já chega ao governo determinada por legislação, benefícios, regras previdenciárias, salários, transferências e outras obrigações.

Não significa que 90,2% estejam eternamente congelados pela Constituição.

Mas significa que governos possuem espaço relativamente limitado para mudar rapidamente a composição das despesas.

É aqui que educação, política fiscal e produtividade se cruzam novamente.

Uma sociedade que precisa investir no futuro administra um orçamento fortemente comprometido com decisões tomadas no passado.

O CONFLITO GERACIONAL SILENCIOSO

A política frequentemente recompensa o presente.
A educação remunera o futuro.

Esse conflito raramente aparece de maneira explícita.

Uma criança que entra hoje no ensino fundamental pode levar quinze ou vinte anos para converter uma política educacional melhor em produtividade econômica.

Uma transferência de renda aparece imediatamente.

Uma obra pode ser inaugurada.

Um benefício pode gerar apoio político rapidamente.

Uma reforma curricular bem executada não produz fotografia comparável.

Seu resultado talvez apareça em uma avaliação internacional uma década depois.

Isso cria um dos maiores problemas de governança das democracias:

quem paga o custo político hoje talvez não receba o benefício eleitoral amanhã.

Países que conseguem escapar dessa armadilha normalmente transformam determinadas políticas de longo prazo em compromissos institucionais que sobrevivem à troca de governos.

Educação precisa ser uma delas.

A VERDADE INCÔMODA SOBRE “MANIPULAÇÃO”

Dizer que “os políticos brasileiros mantêm deliberadamente a população ignorante para controlá-la” é uma afirmação extraordinária.

E afirmações extraordinárias exigem provas extraordinárias.

Os indicadores apresentados aqui não fornecem essa prova.

Não demonstram um comando coordenado.

Não demonstram intenção comum.

Não demonstram que presidentes, governadores, prefeitos, parlamentares e burocracias atuaram durante décadas com o objetivo consciente de produzir ignorância.

Mas existe uma questão igualmente desconfortável.

Depois de décadas de evidências mostrando o tamanho da crise de aprendizagem, a incapacidade de produzir melhora sustentada torna-se, por si só, uma questão política.

Talvez a pergunta correta não seja:

Quem planejou manter o Brasil ignorante?

Talvez seja:

Por que um sistema político que conhece há décadas a gravidade do problema ainda não conseguiu colocar aprendizagem no centro de seu projeto nacional?

Essa pergunta é empiricamente mais defensável.

E politicamente mais difícil de responder.

O PAÍS RICO QUE CONTINUA POBRE

Talvez o maior equívoco brasileiro seja definir riqueza pelo que existe debaixo do solo.

Riqueza contemporânea está cada vez mais dentro da cabeça das pessoas.

O Japão tem poucos recursos naturais comparado ao Brasil.

Singapura possui território minúsculo.

Coreia do Sul saiu da guerra devastada.

Estônia possui população menor que muitas regiões metropolitanas brasileiras.

Nenhum desses fatos determina sozinho seus resultados.

Mas seus sistemas educacionais conseguem levar parcelas muito maiores de adolescentes aos patamares básicos e avançados de conhecimento medidos pelo PISA.

Enquanto isso, o Brasil possui território continental, commodities, energia, água, minerais, agricultura e escala — e chega aos 15 anos com 73% de seus estudantes abaixo do nível básico de matemática.

Esta talvez seja a contradição brasileira mais importante.

Não somos um país sem recursos.
Somos um país com enorme dificuldade histórica de transformar recursos em capacidade humana disseminada.

O PODER DE UMA POPULAÇÃO QUE SABE PENSAR

Existe ainda uma dimensão que PIB nenhum consegue capturar integralmente.

Uma população educada não serve apenas para produzir mais.

Serve para fiscalizar melhor.

Comparar promessas.

Entender orçamento.

Interpretar estatísticas.

Questionar autoridades.

Distinguir opinião de evidência.

Identificar contradições.

Exigir explicações.

Criar empresas.

Desenvolver tecnologia.

Tomar decisões financeiras melhores.

Participar da vida pública com instrumentos intelectuais mais sofisticados.

Por isso educação nunca é apenas política social.

É infraestrutura de democracia.
É infraestrutura econômica.
É infraestrutura de soberania.

O VERDADEIRO PRÉ-SAL BRASILEIRO ESTÁ NAS ESCOLAS

Talvez o maior recurso ainda não explorado do Brasil não esteja no oceano profundo.

Nem na Amazônia.

Nem em Minas Gerais.

Nem no Cerrado.

Está em milhões de crianças.

Cada aluno que termina a escola sem compreender adequadamente matemática, ciência e leitura representa capacidade produtiva que o país poderia ter desenvolvido e não desenvolveu completamente.

Multiplique isso por uma geração.

Depois por duas.

Depois por cinco.

O resultado aparece décadas depois na produtividade, na renda, no grau de sofisticação industrial, na capacidade de inovação e na posição internacional de um país.

NÃO É UM PROBLEMA DE ESQUERDA OU DIREITA

A cronologia impede uma interpretação tão simples.

O desempenho educacional brasileiro atravessou administrações de diferentes correntes políticas.

Governos mudaram.

Coalizões mudaram.

Presidentes mudaram.

Congresso mudou.

Estados e municípios trocaram seus governantes repetidamente.

Mas a dificuldade de aprendizado permaneceu.

Transformar educação em arma partidária pode gerar votos.

Transformá-la em política nacional exige outra coisa.

Continuidade.
Avaliação.
Alfabetização na idade certa.
Formação e seleção de professores.
Gestão escolar.
Currículo coerente.
Cobrança de resultados.
Apoio a estudantes vulneráveis.
Capacidade de corrigir políticas que não funcionam.
E paciência institucional suficiente para trabalhar em décadas, não eleições.

O BRASIL NÃO PRECISA ESCOLHER SER POBRE

Existe um perigo na frase “o Brasil escolheu ser pobre”.

Países não são pessoas.

Não existe uma única vontade nacional apertando um botão.

Existem milhões de escolhas acumuladas.

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