
POLÍTICA & MERCADO
Cassino costuma exigir uma gentileza básica do cliente: apostar antes de saber o resultado. Parece óbvio, mas a política brasileira de 2026 resolveu sofisticar o jogo. Na véspera do primeiro turno, neste domingo, 4 de outubro, 158,7 milhões de eleitores ainda carregam o voto no bolso enquanto o mercado financeiro já entrou no salão, pediu uma dose dupla de expectativa e empilhou fichas sobre a mesa presidencial.
A urna ainda nem abriu.
A banca já faz conta.
Uma pesquisa do J.P. Morgan com clientes do banco mostra 59,7% deles apostando numa vitória de Flávio Bolsonaro e 40,3% na reeleição de Lula. Convém guardar o champanhe: não se trata de pesquisa eleitoral, mas de investidores especializados em mercados emergentes. Bloomberg não virou seção eleitoral. O levantamento mede menos a vontade do eleitor do que a pulsação da carteira. No Datafolha, numa simulação de segundo turno, Lula aparece com 48% e Flávio com 45%. Outros levantamentos também registram equilíbrio. O dinheiro escolheu sua ficha. O eleitor ainda escolhe o candidato.
Há ainda um pequeno inconveniente chamado calendário. Se ninguém alcançar maioria absoluta dos votos válidos para presidente em 4 de outubro, o país volta às urnas em 25 de outubro. O primeiro turno também escolherá senadores e deputados e poderá decidir governos estaduais. Mas o capital sofre de ansiedade com serviço premium: gostaria de receber a sobremesa antes que o eleitor termine a entrada.
Na bolsa, essa pressa ganhou até iluminação própria. Segundo o J.P. Morgan, o MSCI Brazil avançou, em média, 0,25% nos dias em que Flávio cresceu nas pesquisas. Nasce aí uma modalidade curiosa de participação cívica: o voto patrimonial. Não precisa título, biometria nem fila. Só saldo.
No centro do salão está a convidada que ninguém consegue ignorar: a dívida pública, hoje em 82,86% do PIB, em agosto, com projeções acima de 90% até 2028 e cenários mais severos chegando a 95%. É quando a disputa eleitoral troca o palanque por uma mesa de avaliação de risco. Lula e Flávio deixam de ser apenas candidatos e passam, nos relatórios estrangeiros, a ocupar colunas de prêmio, desconto e desconfiança.
Os juros completam a decoração. O Copom reduziu a Selic de 14% para 13,75%. O Focus projeta 13,50% no fim do ano, IPCA de 4,92%, crescimento de 1,88% e dólar a R$ 5,20. O Goldman Sachs prefere olhar as curvas de juros. É a elegância da roleta institucional: o cidadão escolhe quem governa; o banco escolhe onde acredita estar a assimetria.
E os estrangeiros não vieram visitar o cassino. Em 2026, já compraram R$ 22,2 bilhões líquidos em ações brasileiras e alcançaram participação recorde nos negócios da B3. Entraram, pagaram a ficha, puxaram a cadeira e perguntaram onde fica a mesa fiscal.
Daí vêm os cenários do J.P. Morgan. Com Flávio e um ajuste fiscal robusto, a bolsa poderia subir até 54%; numa melhora gradual, 28%. Na continuidade da atual política fiscal sob Lula, o banco projeta queda de 7% num quadro de estagnação e de 21% numa crise fiscal mais grave. Não é profecia. É apenas o velho jogo vestido de PowerPoint: aposta vira cenário-base, medo vira prêmio de risco e desejo ganha nome de precificação.
Mas há um detalhe incômodo para quem já gostaria de contar as fichas na madrugada de domingo. A eleição pode estar apenas começando. Com segundo turno, haverá mais três semanas de campanha, nova propaganda eleitoral entre 9 e 23 de outubro e votação em 25. Depois chegam equipe econômica, metas fiscais, composição do Congresso e aquela pergunta que nenhuma planilha responde sozinha: haverá maioria para governar?
Economia Petrobras atinge recorde de valor de mercado após descoberta no Amapá
Economia Preço do limão está acima da média, mesmo na entressafra
Economia Nova descoberta aumenta expectativa da Petrobras na Foz do Amazonas Mín. 15° Máx. 23°